Na tua calmaria
Eu me perdia.
Eu me rendia.
Eu perdia a rédia.

Na tua voz mansa
que de tão vagarosa
descansa
eu desatento
fiz meu alento

Na tua cantoria rouca
eu de tão broca
me perdi na tua boca

Me achei no teu verso
me perdi no teu inverso
me vi submerso
nesse teu universo.

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06:18

Enquanto nasce o dia, eu rezo. Oro pedindo para que o dia se faça de sol, ou só de luz. Enquanto peço um pouco de calor, minha vó prepara um pouco de café e o dia se faz dia. Anseio que o dia continue calmo, como a voz rouca da minha vó. Enquanto a chaleira apita, corro pra vê-la coando o dito líquido escuro com gosto amargo que espanta o sono, alegra o dia e traz a vontade de tragar, tragando. Pois não, a borra do café nada mais é que uma cigana adormecida, que procurando fazer morada em uma lâmpada mágica, se confundiu e entrou na chaleira, reza a lenda, que quem faz o café tem direito a ver seu futuro na borra dele. Meu futuro é borrado mesmo. Enquanto me sirvo de intensivo caldo caloroso, minha vó me conta o que aprontava em sua mocidade, enganosa eu que achava que ela só dançava iê iê, falava broto e gostava de namorar na pracinha, na verdade ela nunca nem fez isso, tava ocupada criando um irmão e cozinhando arroz pro padastro que fazia bicos por aí. Nas novelas as coisas são mais bonitas. Ela cala, e eu só abro a boca pra por a xícara engolir o café fraco, me vejo nele. Me vejo fútil, fraca e sem suingue pra dancar iê iê iê. Na fraqueza de uma manhã qualquer a gente sempre se encontra, na insustentável vontade de ser forte, a gente passa a acreditar que com passar do tempo, com o pão macio, a fruta doce e a carne dura, possamos nos fortalecer. Bobeira! A gente se faz mais forte quando não tem pão, hora, nem açúcar, pena que minha vó não me contou isso, nem eu me contei ainda, acho que estar me vendo no futuro não torna as fáceis, me vejo aqui, e não sei explicar a essa boboca que balança de forma absurda a chaleira em busca de solução que o tempo é amigo de tudo, pelo menos quando em uma manhã de segunda a gente encontra paz. Por mais difícil que seja, a segunda é sempre uma hora de pensar um recomeço, com tanta falta de tempo, seria perca dele reclamar de hoje, sendo que hoje enquanto muitos reclamam do trabalho, da escola, da faculdade, o máximo que faço é vegetar e escrever isso com a fracassada vontade de querer fazer algo e não conseguir. Já é quase meio dia, vai ter almoço, suco de goiaba, minha mãe tá fazendo, e eu tô rezando de novo, rezando pra que esteja forte, doce e que seja claro, se de fato a gente é o que come, eu só posso querer isso pro resto do dia.

Era prosopopéia

 

O acalento que grita
Acoitado no ensejo
Os braços fazem nó
Afoito no desejo
Suspira, virando pó.

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe

Puxa o ar, solta
Cala o beijo, só
Enquanto a boca desbota
E suspira, vira pó.

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe

De saco cheio ficou
Me encheu de esperma
Amargo que nem giló
Numa doce espera
Suspirando e sendo pó

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe

Gostou do desespero
Esquentou feito sol
Enquanto se sentia inteiro
Suspirando, cheirando pó

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe
Cheira”

Te como, me come.

Cuspo fora.

Teu gozo e meu amor. 

Povoa.

Entre a desgrama que o amor provoca
E a tristeza que se desloca
Desloca do centro
e se coloca no acento.
Ali povoa o tesão.
Me sento.
Me coloco diante de tu, nua.
Gemidos são sentidos.
Problemas esquecidos.
Só sinto teu gozo, me gozo.
Me esforço, te sinto.
Me pinto, me bordo, me desgraço.
Me engraço, disfarço, te engulo.
Escrúpulo.
Pulo, subo, desço.
Me envaideço, te engrandeço.
e esqueço.

Lá, bem dentro, onde o amor devora.

De tanto me temperar, temperamental fiquei. 

Me deite, azeite.

Enquanto me bate, tomate.

O tempo esquenta, pimenta. 

Por fim, me come. 

Usando cebola. (ou o que rima com ela)

 

cor(po)

Eu preciso de um trabalho pra sustentar o peso de uma cabeça que incansavelmente pensa. A incrível e longa vontade de deixar a mente gritar onomatopéias. Eu tenho uma estrutura corpórea literalmente indesejável, te entendo agora. Tenho um falido rins que ousa por uma pedra no caminho, me fazendo tropeçar e ir ao chão. Na queda de toda instantânea pressão, rude, faz grunir, me faz gritar, se desmancha, me afogo em sangue, fígado fodido! Tu me pede mais combustível que meu fusca 84. Um fusca 84, mais rodado que eu mesmo, fumaça mais que Maria, me tira, arranca, escurece, pulmão, o pulmão respira ar branco e impuro por saber que por a boca em cigarro é melhor que chupar buceta velha, chapo. A madrugada e todo seu apêndice, bonito apêndice, aliás, tu me resta, és inválido, eu também. Tenho morrido algumas vezes, tranformado vinho em água, outras infarto. Ainda pousa pra dizer que vou bem, sou bonito por dentro, tudo bem…

 

“Porque fazer sofrer a minha pobre próstata

Me Buarco.

 Você diz que vem. Eu entendo que vem fazer morada. Deixo a casa ariada, a poltrona reclinada e ponho um disco do Chico pra tocar, abro as janelas e deixo a brisa entrar. Varro a casa, espanto o que de ruim tiver por lá, pra ti só quero coisas boas. Você me liga dizendo que vem as quatro, são duas e vou me arrumar, me arrumo, pois cada vez que tu vem me ver, com uma roupa diferente eu tô, desculpa é que a cada visita tua me renovo, me reinvento, invento, mudo tempo, muda tudo, menos… Já são cinco e meia, não vejo sinal nem de tua meia, quanto mais teu pé por cá. Te ligo toda desesperada… Acalmo a voz e digo serenamente.

– Aconteceu algo?

– Não, apenas encontrei uma amiga na rodoviária e parei pra umas biritas.

– Tudo bem, quando vier, me liga.

– Tá bem, pode dormir, talvez eu demore mais por cá.

 tum, tum, tum… (Não sei que som escuto, o do telefone ou do meu coração acelerado)

Eu não me importo em esperar, embora o tempo passe devagar, o fato dele vir torna o relógio um travesseiro… Tá tudo bem. Esquento a janta que era pra gente, você sabe, não sei fazer nada, mas cozinhar… Aham, eu sei. Preparei um arroz a grega, com um frango e um bom vinho, tomo coca-cola e como o arroz que requentei no microondas, comi pouco, queria deixar muito pra ti, que provavelmente chegará de viagem com uma baita fome e vai comer. Nesse momento me sobe o pensamento de quanto eu também queria ser o alimento dele, ser digerida por aqueles dentes, sentir aquele aparelho dele machucando minha pele, sentir ele me mastigando com força e pedaços de mim ir saciando ele, na descida da garganta, quem sabe eu pegue um atalho e pare no peito dele. Me pego rindo com tamanha babaquice, tomo um banho quente, olho relógio, são oito e vinte e três, aguardo mais um pouco, pego no sono… no meio da noite tenho um sonho, qual era acordada pelo moço de pele morena, cabelo de lado e barba falha, ele me dava um beijo na testa, me desejava bom dia, perguntava se eu tinha gostado da noite anterior… Que noite anterior? Ele me contava que tínhamos ensaiado o Kama sutra, aliás, uma adaptação do livro, e que queria depois comprar a versão original, ler e por em prática comigo… Me arre… Antes que o sonho fosse concluído fui acordada com um beijo na testa, antes de abrir o olho sinto aquele cheiro de vinho barato e perfume doce (Não era o perfume dele) me assusto e abro os olhos.

– Ai.

– Desculpa não era minha intenção te acordar, só queria dizer que vou tomar um banho e dormir, tô cansando!

– Espera, como foi a viagem? A noite? Te deixei comida no microondas, se quiser.

– Depois te conto, só quero um banho e uma cama.

(Quis oferecer a minha, mas era de solteiro, e ele era espaçoso)

– Tá, te deixei um lençol e pode dormir no quarto de visitas.

– Obrigado, vê se dorme, bom dia!

Dormi… Aliás, fingi dormir. Logo eram duas horas da tarde, comi a comida dele e deixei uma pizza na mesa, coloquei o disco do Odair Jose (combinava mais com o momento) e me pus a chorar. Lá vem ele, com cara de sono ou de ressaca.

– Boa tarde! Tô varado de fome, tem algo aê?

– Tem uma pizza de calabresa, é só pôr no forno.

– Tá.

Baixo a cabeça, enxugo as lágrimas e ponho Chico novamente

Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Dá vontade de desaguar, o clima tá nublando lá fora, aqui dentro já teve dilúvios. Ele come e vem conversar comigo, quando chega na parte bem amargurada da música

Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar

Isso é quase uma indireta, ou direta e ele se faz por não notar. Ele me olha com cara de quem não tem assunto e diz:

– Prefiro o disco “cê” do Caê.

(Eu prefiro só o cê)

– Qual música em específico?

– Um sonho, ou homem, sei lá.

(Um sonho…)

– É, não sou muito chegada no Caetano, prefiro o Chico mesmo.

– Não sabe o que tá perdendo.

Logo ele começa a contar dos acontecidos da noite passada, diz que a amiga que ele tava na noite passada havia o convidado para dormir lá hoje, eles haviam ficado ontem e já tinham ficado outras vezes, a primeira vez que ficaram foi em um show do Detonautas, e que faz tanto tempo que ele nem lembra qual dos. Ele era fã frenético do Detonautas. Isso ás vezes me fazia brochar, logo lembrava que ele havia me apresentado o Léo Fressato e logo o perdoava. Ele me falava dessa moça da noite anterior de forma rápida, quase sem respirar, eu sou de criar esperanças e queria entender que aquilo não tinha importância pra ele, bem, fiquei meia triste, ele falou que ia há casa dela, porque não ia perder a foda, e que se desse voltava por cá.  Eu pensei tão alto que só falei…

– … Foda!

– Foda o quê? (Voz de riso)

– A foda, ué, é foda foder…

– Ah… (risos), é sim.

No mesmo instante começa a tocar mil perdões, o silêncio toma conta, só a melodia fica solta. Eu começo a chorar…

– Tá acontecendo algo, Luísa?

– Não, Bruno. Apenas ando com a vista embaçando, é isso.

– Ah, bem, vou cuidar, me despeço de ti antes de ir.

Eu só baixo a cabeça e peço aos orixás que eles possam continuar me mantendo forte, ele acabou de me bater e nem sabe. Será o caso de ir na Maria da penha? Prendo esse infeliz, quem sabe assim ele não se prende a mim, besteira qualquer, a lei não voga se quer pros casos reais, quem dirá pra esse sentimentalismo barato que forjo. Sinto cheiro dele vindo e a zoada do tic-tac do relógio, são três e quarenta e oito da tarde, ele olha pra mim e diz:

– Vai me abraçar não?

(Eu vou com vontade de não soltar mais, quero prender o mundo)

– Vou, rum.

(Os braços longos deles parecem fazer par com o meu, fino e longo também)

– Te cuida, tá? Outro dia venho e sem empecilhos demoro mais.

– Tá, vem mesmo, avisa um pouco antes.

(Pr’eu poder fazer toda cena de novo)

– Aviso, se cuide e vá no oftalmologista.

– Vou sim

(Mal sabia que o caso seria de cardiologista)

Ele se vai, o vento puxa a porta com uma força e ele grita do lado de fora

– Foi o vento.

– Tá, eu sei, tchau.

Logo ele se vai, eu penso em correr atrás e pedir pra ficar, mas ele não gosta de ficar, só de ficar com as moças, aquelas moças alternativas, ele gosta delas, eu sou cafona e brega. Mas enfim, ele se foi como toda vez gosta de ir, e eu ainda rezo que um dia por  preguiça de ir ou vontade, ele fique mesmo, fique comigo e com mais algumas bagunças e balelas que toda ariana tem.

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair

Chico me entende.

 

Eu tenho direito de não querer fazer direito.
Posso apenas querer ‘físicar’ por aí.
Ou de fazer tudo errado.
Fazer direito é muito chato.
Não sei fazer nada endireitado.