Arquivo mensal: maio 2014

Me Buarco.

 Você diz que vem. Eu entendo que vem fazer morada. Deixo a casa ariada, a poltrona reclinada e ponho um disco do Chico pra tocar, abro as janelas e deixo a brisa entrar. Varro a casa, espanto o que de ruim tiver por lá, pra ti só quero coisas boas. Você me liga dizendo que vem as quatro, são duas e vou me arrumar, me arrumo, pois cada vez que tu vem me ver, com uma roupa diferente eu tô, desculpa é que a cada visita tua me renovo, me reinvento, invento, mudo tempo, muda tudo, menos… Já são cinco e meia, não vejo sinal nem de tua meia, quanto mais teu pé por cá. Te ligo toda desesperada… Acalmo a voz e digo serenamente.

– Aconteceu algo?

– Não, apenas encontrei uma amiga na rodoviária e parei pra umas biritas.

– Tudo bem, quando vier, me liga.

– Tá bem, pode dormir, talvez eu demore mais por cá.

 tum, tum, tum… (Não sei que som escuto, o do telefone ou do meu coração acelerado)

Eu não me importo em esperar, embora o tempo passe devagar, o fato dele vir torna o relógio um travesseiro… Tá tudo bem. Esquento a janta que era pra gente, você sabe, não sei fazer nada, mas cozinhar… Aham, eu sei. Preparei um arroz a grega, com um frango e um bom vinho, tomo coca-cola e como o arroz que requentei no microondas, comi pouco, queria deixar muito pra ti, que provavelmente chegará de viagem com uma baita fome e vai comer. Nesse momento me sobe o pensamento de quanto eu também queria ser o alimento dele, ser digerida por aqueles dentes, sentir aquele aparelho dele machucando minha pele, sentir ele me mastigando com força e pedaços de mim ir saciando ele, na descida da garganta, quem sabe eu pegue um atalho e pare no peito dele. Me pego rindo com tamanha babaquice, tomo um banho quente, olho relógio, são oito e vinte e três, aguardo mais um pouco, pego no sono… no meio da noite tenho um sonho, qual era acordada pelo moço de pele morena, cabelo de lado e barba falha, ele me dava um beijo na testa, me desejava bom dia, perguntava se eu tinha gostado da noite anterior… Que noite anterior? Ele me contava que tínhamos ensaiado o Kama sutra, aliás, uma adaptação do livro, e que queria depois comprar a versão original, ler e por em prática comigo… Me arre… Antes que o sonho fosse concluído fui acordada com um beijo na testa, antes de abrir o olho sinto aquele cheiro de vinho barato e perfume doce (Não era o perfume dele) me assusto e abro os olhos.

– Ai.

– Desculpa não era minha intenção te acordar, só queria dizer que vou tomar um banho e dormir, tô cansando!

– Espera, como foi a viagem? A noite? Te deixei comida no microondas, se quiser.

– Depois te conto, só quero um banho e uma cama.

(Quis oferecer a minha, mas era de solteiro, e ele era espaçoso)

– Tá, te deixei um lençol e pode dormir no quarto de visitas.

– Obrigado, vê se dorme, bom dia!

Dormi… Aliás, fingi dormir. Logo eram duas horas da tarde, comi a comida dele e deixei uma pizza na mesa, coloquei o disco do Odair Jose (combinava mais com o momento) e me pus a chorar. Lá vem ele, com cara de sono ou de ressaca.

– Boa tarde! Tô varado de fome, tem algo aê?

– Tem uma pizza de calabresa, é só pôr no forno.

– Tá.

Baixo a cabeça, enxugo as lágrimas e ponho Chico novamente

Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Dá vontade de desaguar, o clima tá nublando lá fora, aqui dentro já teve dilúvios. Ele come e vem conversar comigo, quando chega na parte bem amargurada da música

Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar

Isso é quase uma indireta, ou direta e ele se faz por não notar. Ele me olha com cara de quem não tem assunto e diz:

– Prefiro o disco “cê” do Caê.

(Eu prefiro só o cê)

– Qual música em específico?

– Um sonho, ou homem, sei lá.

(Um sonho…)

– É, não sou muito chegada no Caetano, prefiro o Chico mesmo.

– Não sabe o que tá perdendo.

Logo ele começa a contar dos acontecidos da noite passada, diz que a amiga que ele tava na noite passada havia o convidado para dormir lá hoje, eles haviam ficado ontem e já tinham ficado outras vezes, a primeira vez que ficaram foi em um show do Detonautas, e que faz tanto tempo que ele nem lembra qual dos. Ele era fã frenético do Detonautas. Isso ás vezes me fazia brochar, logo lembrava que ele havia me apresentado o Léo Fressato e logo o perdoava. Ele me falava dessa moça da noite anterior de forma rápida, quase sem respirar, eu sou de criar esperanças e queria entender que aquilo não tinha importância pra ele, bem, fiquei meia triste, ele falou que ia há casa dela, porque não ia perder a foda, e que se desse voltava por cá.  Eu pensei tão alto que só falei…

– … Foda!

– Foda o quê? (Voz de riso)

– A foda, ué, é foda foder…

– Ah… (risos), é sim.

No mesmo instante começa a tocar mil perdões, o silêncio toma conta, só a melodia fica solta. Eu começo a chorar…

– Tá acontecendo algo, Luísa?

– Não, Bruno. Apenas ando com a vista embaçando, é isso.

– Ah, bem, vou cuidar, me despeço de ti antes de ir.

Eu só baixo a cabeça e peço aos orixás que eles possam continuar me mantendo forte, ele acabou de me bater e nem sabe. Será o caso de ir na Maria da penha? Prendo esse infeliz, quem sabe assim ele não se prende a mim, besteira qualquer, a lei não voga se quer pros casos reais, quem dirá pra esse sentimentalismo barato que forjo. Sinto cheiro dele vindo e a zoada do tic-tac do relógio, são três e quarenta e oito da tarde, ele olha pra mim e diz:

– Vai me abraçar não?

(Eu vou com vontade de não soltar mais, quero prender o mundo)

– Vou, rum.

(Os braços longos deles parecem fazer par com o meu, fino e longo também)

– Te cuida, tá? Outro dia venho e sem empecilhos demoro mais.

– Tá, vem mesmo, avisa um pouco antes.

(Pr’eu poder fazer toda cena de novo)

– Aviso, se cuide e vá no oftalmologista.

– Vou sim

(Mal sabia que o caso seria de cardiologista)

Ele se vai, o vento puxa a porta com uma força e ele grita do lado de fora

– Foi o vento.

– Tá, eu sei, tchau.

Logo ele se vai, eu penso em correr atrás e pedir pra ficar, mas ele não gosta de ficar, só de ficar com as moças, aquelas moças alternativas, ele gosta delas, eu sou cafona e brega. Mas enfim, ele se foi como toda vez gosta de ir, e eu ainda rezo que um dia por  preguiça de ir ou vontade, ele fique mesmo, fique comigo e com mais algumas bagunças e balelas que toda ariana tem.

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair

Chico me entende.

 

Eu tenho direito de não querer fazer direito.
Posso apenas querer ‘físicar’ por aí.
Ou de fazer tudo errado.
Fazer direito é muito chato.
Não sei fazer nada endireitado.

Pedro (Desaguando)

São pedro vem chorado muito.

Creio que ele chore pra presentear o moço João.
O mesmo acontece comigo.
Me derramo e cortejo alguém/algo                                                                                                                                                         Sempre que a danada vem, eu faço chover. Viro são Pedro.

Bonito é o encanto do encontro dele comigo. Lágrimas bonitas.            

Pedro é menino dengoso.                                                                                                                                                                         Chora feliz.                                                                                                                                                                                                 Chora triste.                                                                                                                                                                                               Chora pro Sertão sorrir                                                                                                                                                                            .

… Bem, talvez Pedro nem chore.

(Ele pode apenas abrir torneirinhas como eu costumava achar antes)                                                                                                                                                             

Eu sempre fui obrigada a dizer obrigado.



Nunca vi necessidade de agradecer tudo, até o dia em que minha mãe disse que era necessário se dizer “obrigado”, aliás, ela não disse, ela obrigou:

– Guria, pede obrigado ou em casa nós conversamos. (Sussurrando)

Eu também era obrigada a conversar com ela em casa. Eram conversas difíceis, eu saia roxa e ela vermelha.

Com tempo indo, me vi obrigada a fazer outras “obrigações”:
A sorrir para não ser antipática.
A abraçar para não ser frígida. 
A beijar para gostar.
A transar para sentir tesão (ou parecer que sinto)
As vezes me obrigo a abrigar. 
Eu me sinto oprimida, agradeça, ou não será admitida. 
Mas olha:
Não
Nasci
Para
Ser
Contida.

A Respeito de tatuagens:

 

Até hoje mainha ainda não acredita que os riscos em minha pele são definitivos. Ela acha que qualquer dia desses eles vão cansar do meu tom desbotado e vão pular fora.

Tatuagem é mancada.
Eu não sou descolada.
Assim não valho nada.

… Me falou mainha, toda arretada!
Mas quem disse que eu já quis valer algo?