Arquivo mensal: junho 2014

06:18

Enquanto nasce o dia, eu rezo. Oro pedindo para que o dia se faça de sol, ou só de luz. Enquanto peço um pouco de calor, minha vó prepara um pouco de café e o dia se faz dia. Anseio que o dia continue calmo, como a voz rouca da minha vó. Enquanto a chaleira apita, corro pra vê-la coando o dito líquido escuro com gosto amargo que espanta o sono, alegra o dia e traz a vontade de tragar, tragando. Pois não, a borra do café nada mais é que uma cigana adormecida, que procurando fazer morada em uma lâmpada mágica, se confundiu e entrou na chaleira, reza a lenda, que quem faz o café tem direito a ver seu futuro na borra dele. Meu futuro é borrado mesmo. Enquanto me sirvo de intensivo caldo caloroso, minha vó me conta o que aprontava em sua mocidade, enganosa eu que achava que ela só dançava iê iê, falava broto e gostava de namorar na pracinha, na verdade ela nunca nem fez isso, tava ocupada criando um irmão e cozinhando arroz pro padastro que fazia bicos por aí. Nas novelas as coisas são mais bonitas. Ela cala, e eu só abro a boca pra por a xícara engolir o café fraco, me vejo nele. Me vejo fútil, fraca e sem suingue pra dancar iê iê iê. Na fraqueza de uma manhã qualquer a gente sempre se encontra, na insustentável vontade de ser forte, a gente passa a acreditar que com passar do tempo, com o pão macio, a fruta doce e a carne dura, possamos nos fortalecer. Bobeira! A gente se faz mais forte quando não tem pão, hora, nem açúcar, pena que minha vó não me contou isso, nem eu me contei ainda, acho que estar me vendo no futuro não torna as fáceis, me vejo aqui, e não sei explicar a essa boboca que balança de forma absurda a chaleira em busca de solução que o tempo é amigo de tudo, pelo menos quando em uma manhã de segunda a gente encontra paz. Por mais difícil que seja, a segunda é sempre uma hora de pensar um recomeço, com tanta falta de tempo, seria perca dele reclamar de hoje, sendo que hoje enquanto muitos reclamam do trabalho, da escola, da faculdade, o máximo que faço é vegetar e escrever isso com a fracassada vontade de querer fazer algo e não conseguir. Já é quase meio dia, vai ter almoço, suco de goiaba, minha mãe tá fazendo, e eu tô rezando de novo, rezando pra que esteja forte, doce e que seja claro, se de fato a gente é o que come, eu só posso querer isso pro resto do dia.

Era prosopopéia

 

O acalento que grita
Acoitado no ensejo
Os braços fazem nó
Afoito no desejo
Suspira, virando pó.

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe

Puxa o ar, solta
Cala o beijo, só
Enquanto a boca desbota
E suspira, vira pó.

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe

De saco cheio ficou
Me encheu de esperma
Amargo que nem giló
Numa doce espera
Suspirando e sendo pó

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe

Gostou do desespero
Esquentou feito sol
Enquanto se sentia inteiro
Suspirando, cheirando pó

Domina
Cúpula
Dita
Engole
Cospe
Cheira”

Te como, me come.

Cuspo fora.

Teu gozo e meu amor. 

Povoa.

Entre a desgrama que o amor provoca
E a tristeza que se desloca
Desloca do centro
e se coloca no acento.
Ali povoa o tesão.
Me sento.
Me coloco diante de tu, nua.
Gemidos são sentidos.
Problemas esquecidos.
Só sinto teu gozo, me gozo.
Me esforço, te sinto.
Me pinto, me bordo, me desgraço.
Me engraço, disfarço, te engulo.
Escrúpulo.
Pulo, subo, desço.
Me envaideço, te engrandeço.
e esqueço.

Lá, bem dentro, onde o amor devora.

De tanto me temperar, temperamental fiquei. 

Me deite, azeite.

Enquanto me bate, tomate.

O tempo esquenta, pimenta. 

Por fim, me come. 

Usando cebola. (ou o que rima com ela)

 

cor(po)

Eu preciso de um trabalho pra sustentar o peso de uma cabeça que incansavelmente pensa. A incrível e longa vontade de deixar a mente gritar onomatopéias. Eu tenho uma estrutura corpórea literalmente indesejável, te entendo agora. Tenho um falido rins que ousa por uma pedra no caminho, me fazendo tropeçar e ir ao chão. Na queda de toda instantânea pressão, rude, faz grunir, me faz gritar, se desmancha, me afogo em sangue, fígado fodido! Tu me pede mais combustível que meu fusca 84. Um fusca 84, mais rodado que eu mesmo, fumaça mais que Maria, me tira, arranca, escurece, pulmão, o pulmão respira ar branco e impuro por saber que por a boca em cigarro é melhor que chupar buceta velha, chapo. A madrugada e todo seu apêndice, bonito apêndice, aliás, tu me resta, és inválido, eu também. Tenho morrido algumas vezes, tranformado vinho em água, outras infarto. Ainda pousa pra dizer que vou bem, sou bonito por dentro, tudo bem…

 

“Porque fazer sofrer a minha pobre próstata