Uma história mal contada e um míope.

 Eu conheci um moço. Bem, ele era “diferente”, como todos outros costumavam ser. Ele vinha tropeçando, tropeçando e “Buf!”, bateu em mim, não derrubou dos meus braços nenhum livro do velho Leminski, nem tão pouco um disco do novos baianos, derrubou minha feira, aquela feira suada que comprei pra passar no mínimo um mês.

— Nossa, moça, desculpa derrubar, caso eu tenha quebrado algo, eu pago, nem que seja apenas a feira dessa semana!

Ele se quer imaginou que aquela feira era pro mês todo, eu morava sozinha e não precisava de tanto.

— Não, não precisa de nada, se quebrou, foi alguma besteira, não importa.

— Então estou desculpado?

Eu só devia desculpa-lo depois que me olhasse nos olhos, mas…

— Não se preocupa, tá tudo certo, acontece… (hehe)

— Ah, me sinto melhor, está tudo bem mesmo? Caso esteja, se puder, poderia achar meus óculos que provavelmente caiu pelo chão…

Não pensei muito, abaixei e peguei os óculos do moço, mal sabia eu que míope ele era.

— Aqui está, não tinha notado que havia caído.

— Tudo bem, uso 18 no esquerdo, e 23 no direito.

Fiquei espantada e…

— Nossa, você enxerga mesmo? Isso é muita coisa!

— Enxergo perfeitamente bem, só pedi que pegasse o óculos, pois me sinto inteligente com eles.

Achei engraçado, levei como se ele tivesse sido irônico comigo.

— Ah, ok, que pergunta babaca essa minha.

— Não, não foi, eu enxergo perfeitamente bem, consigo visualizar perfeitamente que você possui alguns muitos cabelos brancos e que lhe caíram todos muito bem.

Fiquei muito envergonhada, pintei o cabelo semana passada e o maldito já desbotou.

— É, é um mal de família.

— Acabei de olhar e vi que você também está bem envergonhada nesse momento.

Esse moço deve estar me zoando, ele não é míope nada, não deve passar de um malandro me enrolando, ele deve querer  me roubar!

— Moço, tenho que ir, está ficando um pouco tarde, tá calor e estou em horário de almoço.

— Viu? Vi também que mentiu pra mim agora e que está assustada. Pode se acalmar, não te farei nenhum mal. Nunca te disseram que não enxergamos com o olho e sim com a alma?

— Não, nunca disseram.

— Nossa, foi só uma metáfora, espero que tenha entendido.

— Entendi.

Tive que ser curta, estava desconfortável a situação.

— Tudo bem, moça, pode ir, mas…

— Não vou.

Por um minuto eu senti vontade de ficar observando como ele olhava pra mim, parecia querer pesquisar dentro de mim qualquer coisa que denunciasse o que eu fazia.

— Ah, você quer ficar? Bom, muito bom.

— Sim. Quer dizer, não sei se quero ficar.  Ficar onde? Aqui parados na rua com essa feira jogada no chão?

— Ah, me perdoe. Deixe-me lhe ajudar.

Me ajudou e sem querer bateu sua testa na minha. Ali mesmo fizemos nosso primeiro contato, dois malucos.

— Ai, essa doeu.

(Porra, como sou desastrada, pareço uma cavala.)

— Dessa vez a culpa foi minha, tenho a testa maior que a cara.

— Não, sua testa é perfeitamente compatível com seu formato de rosto.

— Tu acha? Obrigado!

— Acho sim, poderia me falar mais sobre sua testa, mas, não quer ir pra um canto que possamos sentar?

— Ah, vamos ali naquela praça.

Fomos.

— Você não acredita que sou míope, ponhe esse óculos aí.

— Realmente, cara. Muito grau mesmo, impressionante.

— Não é de se impressionar, é comum ter miopia.

— Não falo da tua miopia, falo da tua sensibilidade.

— Fico grata, moça. Acho que isso é algo positivo(?)

— Talvez.

— Não vou lhe questionar e apenas concordar.

Eu visualizei pela primeira vez quando ele baixou a cabeça que as lentes dos óculos dele estavam sujas, aliás, imundas. Ainda assim, ele enxergava com ps olhos de um anjo. Nossa, já consegui melar a história.

— Concorde.

— Você é de poucas palavras, não é?

Só sei conversar comigo mesma, mas como dizer a ele isso sem fazer parecer com que ele nãos seja interessante.

— É… Acho que sim.

— Bem, moça. Acho que já conversamos o bastante, tenho que ir, está escurecendo. Quer que lhe deixe em algum canto próximo a sua casa? Não quero ir próximo demais, seu namorado pode não gostar.

Ele nem cogitava a hipótese d’eu sou uma jovem solteirona e que cada vez mais tenho menos tempo para pensar em relações.

— Não, não tem problemas.

— Quem não tem problemas, você? ou seu namorado?

(Sim, eu tenho sérios problemas, naquele instante eu quis desabafar minha vida e contar tudo que passo, mas ele só quis perguntar outra coisa, não tão literal assim.)

— Eu não vejo problema nisso e nem ele, até porque não tem esse “ele”.

— Ah, perdoe-me. Ele mora em outra cidade? Não vejo a hipótese de uma moça tão bela não ter ninguém.

Ah, nossa, agora ele vai me cantar.

— É, talvez eu não seja tão bela assim, você é míope mesmo, acredito. (Risos)

— Nesse momento esqueça minha miopia e acredite em mim, já lhe falei sobre como enxergo tudo.

Por um minuto eu quis arranjar tempo e botar aquele moço dentro da sacola de compras e devora-lo assim que chegasse em casa.

— Não há como esquecer, se não fosse ela você nem me levaria ao próximo quarteirão. Você vai me levar no próximo quarteirão, certo?

— Ah, mora perto?

— Sim.

Mas mais do que nunca eu quis morar longe, só pra ficar mais tempo vistando ele me vistar.

— Bem, então vamos.

— Sim.

— Bem, desculpa ter esbarrado em ti, deu pra notar o porque aconteceu isso, né? Não foi por querer.

— Já desculpei, já desculpei.

É, ele era persistente ou gentil.

— Fico grato. Bem moça, o quarteirão fica a 4 metros daqui e quero te deixar aqui mesmo, ali é a parada de ônibus e preciso ir para casa logo. Deixei meu cachorro e meu gato a sós e acho que eles devem estar com fome.

— Ah, mora só?

— Não, moro com um cachorro e um gato.

— Verdade, quis dizer, e sua mulher?

— Não tenho mais mulher, aconteceu algumas coisas e enfim. Tenho que ir.

— Vá.

Ele me deixou à 4 metros do quarteirão, andando mais 7 metros eu chegaria em casa. Também me deixou com uma cara de abobalhada e uma vontade de agregar o gato, o cachorro e o dono dentro do meu casebre. A vida é dessas coisas mesmo. De vontades não feitas, e de oportunidades que se esgotam.  Ele não olhou para trás e se olhou, foi no momento em que eu olhava para frente, mas isso não faria diferença. Nos despedimos como estranhos fazem, e quem sabe um dia ele não esbarre em mim e derrube minha feira novamente.

A carta que não foi entregue.

A carta que te fiz, assim como os sentimentos que criei, entregues a ti não foram. Escrevi em uma folha meia amassada de papel madeira, com uma caneta que solta cheiro, cheiro de flor. Foram palavras bobas, aquelas palavras que adolescentes costumam vomitar, pena que nem adolescente mais eu era, tudo bem, eu sei que meu espírito não tinha envelhecido, mas eu já não tinha atitudes e muito menos cara de adolescente. Me senti ridícula. A carta não entreguei! O amor. Ah, o amor que por ti desenvolvi, moldei. Moldei a mão pedaço por pedaço, coloquei tons fortes, tipo o vermelho, coloquei texturas macias, tipo o veludo, coloquei sabor doce, feito o bolo que minha avó me fazia, quando criança eu era. Mas achei brega, a cor, a textura, o sabor, tudo, tudo brega! E por mais brega o amor fosse, eu não quis  te dar. Logo você que era um moço moderno, desses que parece achar o amor uma tolice e tanta. E e eu só tinha para te ofertar esse amor que era um tanto retrogrado e no fim das contas não ia te servir. As cartas que em cima da cômoda ficaram, tirei, aquele lugar já não era mais propício a tamanho desatino, coloquei-as em cima de um guarda-roupa. Choveu, choveu muito naquela noite, e dentro de mim também. As gotas de chuva que passavam entre as telhas afastadas da minha casa molharam aquela folha, aquela letra, aquela poesia, assim deixando a pobre carta apagada, sem cor, sem cheiro, sem sabor, eu tinha me tornado assim, também. Bem o meu peito era morada para o teu coração, moço, coração esse seu que eu só queria abrigar rente ao meu, e fazer da nossa sinfonia um só ‘tum tum tum’. O amor que a ti não dediquei, foi dosado com uma injeção de insulina ao dia. Como a ti não ofereci a doçura que ele tinha, aprisionado dentro de mim foi ficando, fui diagnosticada com diabetes. Pois é, amor se não for a própria doença, no fim das contas vai nos trazer ela. É amor em si é doentio, ainda mais quando é um amor e uma carta que não foram entregues ao remetente, e vai ficando guardado, amassado, molhado dentro da gente, ou em cima de um guarda roupa qualquer. Com tempo percebi que nem era o meu amor brega que não te servia, e sim que tu não servias para ser o meu amor brega. Bem,  a carta continuou em cima do guarda roupa, que depois troquei e perdida ela foi. E o amor? Com amor aconteceu o mesmo. Fiz uma mudança, dei meu peito a outro moço que merecia ele. E o que tinha de ti espalhado aqui, ah, isso também foi perdido por aí. Mas talvez também tenha ficado parado em uma parte  da lembrança, ou sirva como um texto, para que um alguém qualquer venha a ler e que também venha a recordar das velhas cartas que se quer chegaram aos correios.

Vomitando borboletas e criando minhocas na cabeça.

 

— Estou pondo pra fora, disse me ela.

— Está, vomitando o que comeu o dia todo? Perguntei.

De certa forma ela me respondeu que sim.

— Me veio um refluxo, mas já fez o favor de voltar.

Não tinha compreendido. Mas ela tentou me ser clara.

— Você já passou o dia todo engolindo sapos?

Imaginei ela engolindo seus príncipes encantados, todos de uma vez.

— Não, não pense besteira.

Logo entendi que de modo informal ela estava passando por dificuldades. Pedi que ela falasse de forma mais prolixa e específica.

— Estou passando por desavenças, digamos que meu coração parou de funcionar faz tempo.

Logo notei que aquela moça era fora do comum, ela se expressava de forma subjetiva.

O que me excitava, ela me deixava curioso.

— Que tipos de desavenças? Se teu coração tivesse parado, tu já estaria morta, guria. Foi o que eu respondi-a, ignorante fui eu.

— Não! Você gosta de generalizar, né? Me perguntou ela, com uma expressão diferente.

— Na verdade, sim. Mas talvez, não. Você quem sabe. Respondi-a de forma fria e vazia, não queria que ela notasse que meus olhos já tinham compreendido metade do que ela queria dizer, eu não poderia parecer tão obvio assim.

— Nossa, você é insensível. Quer me ouvir mesmo?

Mais que nunca eu queria ouvir aquela voz fina entrando em meus ouvidos e passando pelos meus tímpanos.

— Lógico, me desculpe. Bem, você poderia ir me contando tudo, eu só irei ouvi-la.

— Está certo, vou contar, mas só escute mesmo. No fim de tudo tu me completa com tua opinião.

Mal sabia ela que eu já estava querendo era completar tudo nela, preencher desde o espaço dos dois dentes dela da frente, até o vazio que em seu estômago parecia habitar.

— Claro, essas foram minhas ultimas palavras, por enquanto, pode falar.

— Bem, como eu havia tentado dizer, meu coração parou. Moço, meu coração parou de sofrer, parou de bater com força, parou de acelerar mais vezes e por fim, parou de sentir. Eu não sei explicar, acho que tô com algum problema cardíaco, sinto que as vezes nele não tem mais nada, nem “tum, tum” ele faz mais.

— Já posso opinar?

Perguntei a ela, querendo dizer que ela não me parecia ter nenhum problema cardíaco. Mas antes que ela me deixasse terminar a pergunta, falou:

— Não, não seja tão apressado, me deixe falar mais. Eu sofro de um mal, esse mal é não sentir. Tu já imaginou como a vida é triste e sem cor pra mim? É tudo preto e branco.

Mal sabia a moça, que ela mais que nunca estava sentindo tudo perfeitamente bem.

— Eu queria respirar um ar menos sujo.

Interrompi-a.

— A má qualidade do ar está cada vez pior. Essa poluiç…

Ela quis me fazer reciprocidade e me interrompeu mais uma vez.

— Não fale nada, só escute. Não me refiro ao ar poluído. Mas me refiro ao cheiro de um passado não muito distante que vez ou outra entra em minha narina e me faz lembrar de algo que ainda tento arrancar do meu subconsciente.

Nossa! Notei que ela é tão piegas quanto eu. Não vejo a hora de fazer dela minha rosa. Pensei, pensei até um tanto inocente, esquecendo que ela ainda tinha muito mais pra dizer.

— Há um tempo atrás gostei de um garoto. Garoto esse que de longe era, só que por acasos e motivos, o destino preferiu desfazer de todos feitos e conquistas que tínhamos construído.

Olhei a moça. Ela não conseguiu ver meus olhos, agradeci aos céus pela lente dos meus óculos se manterem sempre sujas, mas eles estavam parecendo um rio quando quer desaguar. Mas ela continuou a me dizer:

— Com todas as peças que o destino resolver nos pregas, nossos caminhos quiseram e tiveram que ser outros. Eu, estou aqui conversando com você, que pra mim é quase um estranho e ele já deve está esquecendo os últimos soluços que por mim soltou.

Essa moça usava de palavras tão doces, que me parecia impossível imaginar que ela pudesse se rotular de vazia.

— Desde que findamos nosso romance, eu venho tendo refluxos, venho tentando vomitar todas as asas das borboletas que ainda restam em meu estômago. Passei a cultivar minhocas, é melhor inventar algo e passar a crer, do que não saber de nada e se iludir pensando que ele ainda possa vir a voltar pro quentinho do meu peito.

Quentinho do peito dela, o qual eu só queria fazer meu achego.

— Agora você me entende? Você acha que sofro de problemas cardíacos ou estomacais?

— Você sofre de pieguice!

Respondi-a de forma clara e sem mais rodeios, esse dialogo já tinha dado assunto de mais, e eu não queria que ela fosse mais prolixa ainda, me fazendo adubar solos, onde eu mesmo sabia que não podia nem nascer flores.