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Vomitando borboletas e criando minhocas na cabeça.

 

— Estou pondo pra fora, disse me ela.

— Está, vomitando o que comeu o dia todo? Perguntei.

De certa forma ela me respondeu que sim.

— Me veio um refluxo, mas já fez o favor de voltar.

Não tinha compreendido. Mas ela tentou me ser clara.

— Você já passou o dia todo engolindo sapos?

Imaginei ela engolindo seus príncipes encantados, todos de uma vez.

— Não, não pense besteira.

Logo entendi que de modo informal ela estava passando por dificuldades. Pedi que ela falasse de forma mais prolixa e específica.

— Estou passando por desavenças, digamos que meu coração parou de funcionar faz tempo.

Logo notei que aquela moça era fora do comum, ela se expressava de forma subjetiva.

O que me excitava, ela me deixava curioso.

— Que tipos de desavenças? Se teu coração tivesse parado, tu já estaria morta, guria. Foi o que eu respondi-a, ignorante fui eu.

— Não! Você gosta de generalizar, né? Me perguntou ela, com uma expressão diferente.

— Na verdade, sim. Mas talvez, não. Você quem sabe. Respondi-a de forma fria e vazia, não queria que ela notasse que meus olhos já tinham compreendido metade do que ela queria dizer, eu não poderia parecer tão obvio assim.

— Nossa, você é insensível. Quer me ouvir mesmo?

Mais que nunca eu queria ouvir aquela voz fina entrando em meus ouvidos e passando pelos meus tímpanos.

— Lógico, me desculpe. Bem, você poderia ir me contando tudo, eu só irei ouvi-la.

— Está certo, vou contar, mas só escute mesmo. No fim de tudo tu me completa com tua opinião.

Mal sabia ela que eu já estava querendo era completar tudo nela, preencher desde o espaço dos dois dentes dela da frente, até o vazio que em seu estômago parecia habitar.

— Claro, essas foram minhas ultimas palavras, por enquanto, pode falar.

— Bem, como eu havia tentado dizer, meu coração parou. Moço, meu coração parou de sofrer, parou de bater com força, parou de acelerar mais vezes e por fim, parou de sentir. Eu não sei explicar, acho que tô com algum problema cardíaco, sinto que as vezes nele não tem mais nada, nem “tum, tum” ele faz mais.

— Já posso opinar?

Perguntei a ela, querendo dizer que ela não me parecia ter nenhum problema cardíaco. Mas antes que ela me deixasse terminar a pergunta, falou:

— Não, não seja tão apressado, me deixe falar mais. Eu sofro de um mal, esse mal é não sentir. Tu já imaginou como a vida é triste e sem cor pra mim? É tudo preto e branco.

Mal sabia a moça, que ela mais que nunca estava sentindo tudo perfeitamente bem.

— Eu queria respirar um ar menos sujo.

Interrompi-a.

— A má qualidade do ar está cada vez pior. Essa poluiç…

Ela quis me fazer reciprocidade e me interrompeu mais uma vez.

— Não fale nada, só escute. Não me refiro ao ar poluído. Mas me refiro ao cheiro de um passado não muito distante que vez ou outra entra em minha narina e me faz lembrar de algo que ainda tento arrancar do meu subconsciente.

Nossa! Notei que ela é tão piegas quanto eu. Não vejo a hora de fazer dela minha rosa. Pensei, pensei até um tanto inocente, esquecendo que ela ainda tinha muito mais pra dizer.

— Há um tempo atrás gostei de um garoto. Garoto esse que de longe era, só que por acasos e motivos, o destino preferiu desfazer de todos feitos e conquistas que tínhamos construído.

Olhei a moça. Ela não conseguiu ver meus olhos, agradeci aos céus pela lente dos meus óculos se manterem sempre sujas, mas eles estavam parecendo um rio quando quer desaguar. Mas ela continuou a me dizer:

— Com todas as peças que o destino resolver nos pregas, nossos caminhos quiseram e tiveram que ser outros. Eu, estou aqui conversando com você, que pra mim é quase um estranho e ele já deve está esquecendo os últimos soluços que por mim soltou.

Essa moça usava de palavras tão doces, que me parecia impossível imaginar que ela pudesse se rotular de vazia.

— Desde que findamos nosso romance, eu venho tendo refluxos, venho tentando vomitar todas as asas das borboletas que ainda restam em meu estômago. Passei a cultivar minhocas, é melhor inventar algo e passar a crer, do que não saber de nada e se iludir pensando que ele ainda possa vir a voltar pro quentinho do meu peito.

Quentinho do peito dela, o qual eu só queria fazer meu achego.

— Agora você me entende? Você acha que sofro de problemas cardíacos ou estomacais?

— Você sofre de pieguice!

Respondi-a de forma clara e sem mais rodeios, esse dialogo já tinha dado assunto de mais, e eu não queria que ela fosse mais prolixa ainda, me fazendo adubar solos, onde eu mesmo sabia que não podia nem nascer flores.