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A carta que não foi entregue.

A carta que te fiz, assim como os sentimentos que criei, entregues a ti não foram. Escrevi em uma folha meia amassada de papel madeira, com uma caneta que solta cheiro, cheiro de flor. Foram palavras bobas, aquelas palavras que adolescentes costumam vomitar, pena que nem adolescente mais eu era, tudo bem, eu sei que meu espírito não tinha envelhecido, mas eu já não tinha atitudes e muito menos cara de adolescente. Me senti ridícula. A carta não entreguei! O amor. Ah, o amor que por ti desenvolvi, moldei. Moldei a mão pedaço por pedaço, coloquei tons fortes, tipo o vermelho, coloquei texturas macias, tipo o veludo, coloquei sabor doce, feito o bolo que minha avó me fazia, quando criança eu era. Mas achei brega, a cor, a textura, o sabor, tudo, tudo brega! E por mais brega o amor fosse, eu não quis  te dar. Logo você que era um moço moderno, desses que parece achar o amor uma tolice e tanta. E e eu só tinha para te ofertar esse amor que era um tanto retrogrado e no fim das contas não ia te servir. As cartas que em cima da cômoda ficaram, tirei, aquele lugar já não era mais propício a tamanho desatino, coloquei-as em cima de um guarda-roupa. Choveu, choveu muito naquela noite, e dentro de mim também. As gotas de chuva que passavam entre as telhas afastadas da minha casa molharam aquela folha, aquela letra, aquela poesia, assim deixando a pobre carta apagada, sem cor, sem cheiro, sem sabor, eu tinha me tornado assim, também. Bem o meu peito era morada para o teu coração, moço, coração esse seu que eu só queria abrigar rente ao meu, e fazer da nossa sinfonia um só ‘tum tum tum’. O amor que a ti não dediquei, foi dosado com uma injeção de insulina ao dia. Como a ti não ofereci a doçura que ele tinha, aprisionado dentro de mim foi ficando, fui diagnosticada com diabetes. Pois é, amor se não for a própria doença, no fim das contas vai nos trazer ela. É amor em si é doentio, ainda mais quando é um amor e uma carta que não foram entregues ao remetente, e vai ficando guardado, amassado, molhado dentro da gente, ou em cima de um guarda roupa qualquer. Com tempo percebi que nem era o meu amor brega que não te servia, e sim que tu não servias para ser o meu amor brega. Bem,  a carta continuou em cima do guarda roupa, que depois troquei e perdida ela foi. E o amor? Com amor aconteceu o mesmo. Fiz uma mudança, dei meu peito a outro moço que merecia ele. E o que tinha de ti espalhado aqui, ah, isso também foi perdido por aí. Mas talvez também tenha ficado parado em uma parte  da lembrança, ou sirva como um texto, para que um alguém qualquer venha a ler e que também venha a recordar das velhas cartas que se quer chegaram aos correios.